Mauro Ventura conversa nesta terça, 7 de fevereiro, às 20h, no Sesc Vila Mariana (SP), sobre seu "O Espetáculo Mais Triste da Terra - O Incêndio do Gran Circo Norte-Americano".
O livro, lançado em fins do ano passado, trata de uma tragédia real, que ocorreu em 17 de dezembro de 1961, em Niterói, até hoje o pior incêndio com vítimas do Brasil --oficialmente, morreram 503, mas a soma pode ter sido muito maior.
O relato que faz Ventura é dramático e meticuloso, e deixou em muitos dos que leram e são jornalistas a sensação de que deu uma imensa trabalheira toda a operação de pesquisa e entrevistas com testemunhas. Perguntei sobre isso ao autor, e o último trecho abaixo, sobre como conseguiu lidar com um tema tão triste por tanto tempo, é uma ideia dada por Luis Pellanda no twitter durante o fim-de-semana --para segui-lo, @lhpellanda
TABU
"O primeiro trabalho foi convencer as pessoas a falar. Era um tema tabu. Alguns sobreviventes perguntavam: "Por que remexer nesse assunto?", "Por que não falar de coisas boas?". Mas, aos poucos, essa resistência começou a ser vencida, e percebi que o livro funcionou como catarse. As pessoas passaram a querer falar. Em muitos casos, as famílias mal sabiam do que tinha acontecido com seus parentes."
VÁRIAS VERSÕES
"Outra dificuldade foi lidar com as várias versões conflitantes. Não havia consenso sobre nada, da cor da lona às causas do incêndio, passando pelo local onde começou o fogo. Era normal, já que tinha sido muito traumático e havia se passado muito tempo. Mas chegou a um ponto em que fiquei desanimado. A história nunca havia sido contada e eu estava com muitas lacunas. Pensei: pela primeira vez vai se falar sobre esse tema, e no fim das contas vai ficar tudo em aberto."
REDUZIR DÚVIDAS
"Até que li um livro, "Operação massacre", do argentino Rodolfo Walsh, que fala de um fuzilamento. Ele teve que lidar com várias contradições, e, em sua obra, ele assume essas dúvidas. Fiz isso também. Quando não foi possível chegar a um consenso, eu incorporei as versões. Mas ouvi várias vezes os principais entrevistados, para reduzir ao máximo as dúvidas. E tive acesso ao laudo da perícia e à sentença do juiz, que ajudaram muito a esclarecer os fatos. E, por fim, um terceiro complicador foi a falta de documentos importantes, principalmente o processo. Ele desapareceu, assim como os registros dos hospitais e dos cemitérios."
TRISTEZA
"Foi muito doloroso [conviver com o tema], ainda mais porque quando comecei o projeto minha mulher estava grávida. Minha filha, Alice, tem praticamente a idade do livro. Ela era um contraponto às histórias trágicas - principalmente envolvendo crianças - que eu ouvia todos os dias. Mas, ao mesmo tempo, também me sentia mal de ver como os entrevistados foram privados do que eles tinham de mais importante".
Morreu hoje Wisława Szymborska (1923-2012), Nobel de Literatura de 1996. Postei aqui esse poema dela no fim do ano passado.
E agora pesquei do Facebook do poeta Sérgio Alcides isso aqui, de autoria da senhora Szymborska:
"O poeta, independentemente de educação, idade, sexo e preferências, permanece no seu coração o herdeiro espiritual da humanidade dos primórdios. Explicações científicas sobre o mundo não o impressionam muito. Ele é um animista, um fetichista, que acredita nos poderes secretos adormecidos em todas as coisas, e está convencido de poder mexer com essas forças com a ajuda de um punhado de palavras bem escolhidas. O poeta pode até ter recebido um ou outro título com distinção e louvor, mas no momento em que se senta para escrever um poema, seu uniforme da escola racionalista começa a pinicar sob os braços. Ele se retorce, bufando, abre primeiro um botão, depois outro, até arrancar a roupa de uma vez, expondo-se diante de todo mundo como um selvagem que leva uma argola no nariz. Isso mesmo, um selvagem. Do que mais se pode chamar uma pessoa que fala em versos com os mortos e os não-nascidos, com as árvores, os pássaros, e até mesmo com abajures e pernas de mesa?"
Acabara de ler esse trechinho aqui da dona Katia de Queirós Mattoso, uma senhora historiadora que morreu faz um ano este mês, aos 78:
"Viajantes e navegadores insistem na generosidade da baía, que oferece aos veleiros e aos vapores a variedade amistosa de ventos e a proteção de suas ilhas – uma vez ultrapassada a barra, a baía é já um porto, de tão grande chegaram a afirmar que poderia conter todas as esquadras do mundo".
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Faz duas décadas que saiu pela Nova Fronteira esse livro, uma versão um pouco mais leve da tese que defendeu na Sorbonne, a mesma que lhe fez merecer a primeira cátedra de História do Brasil daquela instituição--depois que se aposentou, a vaga foi ocupada por Luiz Felipe de Alencastro.
Está esgotado o livro, um exemplar nos sebos vale uma pequena fortuna. Até imagino a razão de ter desaparecido não só das prateleiras, mas dos assuntos; a historiadora greco-baiana esteve, estava por demais distante do círculo de pensadores do país,e até na contra-mão de algumas ideias consagradas, as mesmas que já enfrenta na introdução.
Quem convive um pouco comigo decerto me ouviu elogiar esse livro mais de uma vez: Em suas mil páginas, Katia Mattoso explica, enfim, o tal "enigma baiano", assim denominado período de imobilismo que a Bahia atravessou na virada do século 19 para o 20. Fortunas se perderam, só sobraram a prataria e a mobília de madeira nobre. Para onde foi o dinheiro? Muita gente tentou responder antes dela, mas com êxito apenas parcial, quando houve algum.
Não pense, leitor, que o livro é chato, que só interessa a quem estuda Bahia ou economia, ou quem tem algum quebranto por temas como escravidão ou século 19. É como filme de época, pintura de grande painel: você se sente dentro daquela cidade e daquele tempo. E há certo clima detetivesco, afinal, como é mesmo que Katia Mattoso descobre tudo isso? Entre suas principais fontes, incluem-se os testamentos, inventários e cartas de alforria que encontrou em algumas décadas de pesquisa.
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Este post inaugura uma nova categoria do blog, "História Etc", para tratar de livros de história, mas não só, também biografias, fotografia, economia (!), assuntos internacionais (!), "humanidades" --tenho em casa uma pequena porém invulgar coleção de livros de viajantes, desde os tempos do Pausânias, da rota da seda do Marco Polo e do Michel Leiris na África. Em 2012, quero comentar sobre os títulos que compro e que quase nunca menciono aqui. Promessa de ano novo e de volta do blog a todo vapor.
Poesia Incompleta é a livraria portuguesa para aqueles que têm margem para o encantamento, como explica seu criador, de alcunha Changuito. Só vende poesia, como diz o nome. Já tinha lido a respeito faz um tempinho, até vi entrevista do dono no youtube. Tem para assistir.
O link, encontrei no mural do poeta Fabio Weintraub no Facebook.
Diz Changuito em alguns dos trechos: "A poesia, creio que só suplantada pelo teatro, é o que dizem ser menos vendável, mas, que diabo, há sempre gente que se vai interessando"; "Esta livraria é um óptimo negócio: não tem dívidas a fornecedores, nem impostos em atraso. Por outro lado, é assente na mais estúpida das premissas: o senhor da limpeza, o telefonista, o livreiro, o gerente de compras, o director de conteúdos para a internet, o publicitário, o agente de ligação com a imprensa, com editoras, até com alguns membros do poder político, é o mesmo e não recebe salário; "Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde."
Pensei que janeiro seria um mês sem notícias, por isso escolhi essas primeiras semanas do ano para ficar fora do dia-a-dia e adiantar outro projeto.
Mas já ocorreu tanta coisa: uma triste e duas interessantes.
A triste foi a morte do Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), conhecido principalmente por suas obras para o público infantil e juvenil. Dele, a Cosac Naify, que publicou "Vermelho Amargo", o de memórias da capa acima, vai lançar ainda um livro inédito. Por aqui, você chega até o perfil do autor publicado no site da editora.
As duas notícias interessantes. Uma é a vinda para o Brasil da portuguesa Tinta-da-China, editora independente que faz livros bonitos e de qualidade _por aqui você chega até o texto de Isabel Coutinho, do "Público".
Faz nove meses que fiz de Lisboa essa reportagem aqui, dizendo que editoras portuguesas, em meio à crise europeia, planejavam ampliar sua participação no Brasil (ja aberto para não assinantes). Este ano, o grupo português Leya fechou postos em Lisboa, ao mesmo tempo em que tem ampliado os daqui, como contou o colega Fabio Victor no "Painel das Letras" (aqui, se assinante do UOL ou da Folha). Na época em que lá estive, ouvi de fontes muy fidedignas e fidalgas que, nos bastidores do Leya, sempre era aventada a hipótese de mudar a sede para cá.
A outra notícia é a saída de Luciana Vilas Boas da direção editorial do grupo Record, depois de uma década e meia. Criou uma agência literária, quando há agora um movimento articulado para exportar autores brasileiros (post aqui) e em que editoras internacionais entram no país -- o episódio mais recente foi a compra de parte da Companhia das Letras pelo grupo Penguin (aqui, se assinante do UOL ou da Folha, texto que fiz para "Mercado"). Luciana é uma editora que fala com muita paixão dos livros e dos autores que representa. O meu palpite é que a decisão foi acertada.
Não devia aparecer aqui este mês (expliquei neste post), mas vi uma coisa muito graciosa e tive de publicá-la.
É sobre o deus que protege aqueles que se embrenham em algum tema de devoção:
"Deve existir no céu um protetor dos pesquisadores em geral e dos pesquisadores de história em particular. Ignoro seu santo nome, mas posso dar testemunho público de sua generosa proteção (...). Nas investigações que venho fazendo (...), o anônimo patrono da pesquisa não me tem abandonado. De quando em vez, inesperadamente, dele recebo um régio documento, cuja existência jamais suspeitei".
Essas frases são do sertanista José Calasans (1915-2001), este senhor aqui, um dos pioneiros na pesquisa sobre Canudos, um dos grandes, se não o maior especialista no tema.
Um dia, ainda menina, fui conversar com professor Calasans em seu escritório. No fim, ele queria me convencer a pesquisar Canudos também. "Mas, professor, já tem tanta pesquisa sobre Canudos!", tentei argumentar. "Ah, mas ainda falta muito o que pesquisar." E me deu uns dois ou três subtemas. A todo mundo que ia lá, descobri depois, ele queria incutir a mesma paixão pelo seu objeto de pesquisa.
E como este é um blog sobre livros, para não perder o hábito, aqui vão três Canudos em livros --Canudos não só seduz pesquisadores, como também ficcionistas.
A do senhor Da Cunha
A do senhor Márai
A do senhor Vargas Llosa
Por aqui, você vai até o post sobre a conferência de Vargas Llosa em Frankfurt em outubro passado, quando tratou, entre outras coisas, de Canudos, Euclides da Cunha, guerras e crueldades.
A notícia do dia (ou do mês!) --ao menos para mim, que não sabia --- é que se localizou a primeira entrevista concedida por Clarice Lispector.
A descoberta é do pesquisador Vilmar Ledesma nos arquivos da "Diretrizes". A entrevista foi feita por Samuel Wainer, e Clarice era ainda mocinha, uma jovem estudante de direito.
Por aqui, você chega até o blog de Vilmar Ledesma, onde encontra dois posts sobre o assunto.
A entrevista foi incluída no volume Encontros/Clarice Lispector, da editora Azougue, que acaba de sair.
"Só acreditaria num Deus que soubesse dançar": foi do "Zaratustra", de Nietzsche, que Pierre Verger (1902-1996) emprestou a epígrafe do primeiro livro que publicou reunindo fotografias de ritos afrobrasileiros. Seu "Dieux d’Afrique", que saiu na França em 1954, mostrava então uns deuses que dançavam.
Independentemente de ter fé ou não ter fé --ele dizia que não--, o etnofotógrafo francês se dedicou a estudar "a África na Bahia e a Bahia na África", como dizia, porque, entre outros motivos, achava admirável que uma pessoa comum se sentisse incorporada por uma divindade, experiência que redimensionava sua vida, por mais pacata, ou até miserável, que fosse.
É conhecida a vida e a obra de Verger depois que se estabelece no Brasil na segunda metade do século 20. O que é menos conhecida é sua trajetória como fotógrafo-viajante pelos cinco continentes a partir da década de 1930, o que lhe permitiu acumular um assombroso acervo de mais de 62 mil negativos.
Sobre o etnofotógrafo e seu longo percurso, chegaram às livrarias há poucas semanas dois volumes especiais. Um deles é sua biografia para crianças, que sai pela Companhia das Letrinhas. É escrita por Angela Lühning, alemã radicada na Bahia, professora da UFBa na área de etnomusicologia e pesquisadora que conviveu com Verger em seus últimos anos. As ilustrações são de Maria Eugênia.
O outro é um estudo muito competente sobre sua obra etnográfica, "Do Olhar Livre ao Conhecimento Iniciático", de Jérôme Souty. O livro, que fora publicado antes em francês, sai aqui pela Terceiro Nome, como contei na "Painel das Letras" algumas semanas atrás (aqui, se assinante do UOL ou da Folha). É o resultado da tese de Souty em antropologia social pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.
A foto que abre este post foi feita no cais de Salvador em 1946. Para conhecer mais imagens, encomendar álbuns fotográficos ou saber sobre exposições, vá por aqui e chegará ao site oficial.
ATUALIZAÇÂO às 16h44 de 09/01 - Sai em breve nova edição de um livro magnífico de Pierre Verger, "50 Anos de Fotografia", que estava esgotado fazia muito tempo. Inclui, além de fotos dos cinco continentes, um relato biográfico que tem beleza e humor; recomendo.
E me lembrei de outra epígrafe, no "Dieux d’Afrique" citado acima, em que Verger pede permissão aos mesmos deuses usando palavras em iorubá. Por via das dúvidas.
Caríssimo leitor: durante o mês de janeiro, me dedico integralmente a uma viagem biográfica e histórica. Só vou poder contar do que se trata em alguns meses. Na minha ausência, o colega Fabio Victor cuida da coluna "Painel das Letras" que sai aos sábados na edição impressa da Folha. Sempre que der, apareço por aqui, mas com menos frequência. Só volto ao ritmo normal em fevereiro. Até já.
Em 2010 a imprensa de língua inglesa só falava em Jonathan Franzen, com seu "Liberdade".
Este 2011, Javier Marías foi o "Franzen" dos espanhóis. Leio no "Babelia", do El País, que seu "Los Enamoramientos" foi escolhido numa votação com 57 críticos como o grande acontecimento literário (vá por aqui e por aqui, em espanhol, para ver os textos completos).
Livros de Marías, como a trilogia "Seu Rosto Amanhã", têm saído por aqui pela Companhia das Letras, mas o autor não teve ainda a atenção que merece, da parte de leitores ou críticos.
Será que a Flip, que vai trazer Franzen, traz também Marías em 2012?
"Eu simplesmente não entendo o Natal -- disse Charlie Brown. -- No fim acabo sempre deprimido. A Lucy tem razão --respondeu Linus --Entre tantos Charlie Browns que existem no mundo, você é o mais Charlie Brown de todos."
O diálogo, editado, está em "O Natal de Charlie Brown", edição da L&PM.
Fui procurar histórias de Natal da turma do Charlie Brown no youtube e adorei isso aqui:
E agora, também a tempo do Natal, deixo a tradução que Drummond fez para esse lindíssimo poema de Jules Supervielle. Está no volume "Poesia Traduzida", da Cosac Naify, que reúne versos trazidos para o português pelo nosso poeta.
A seção "Um Poema" também está de volta --ufa!-- depois de demorados dois meses de quiproquós técnicos aqui no blog. A tempo do Natal.
Primeiro, publico um poema da polonesa Wislawa Szymborska, Nobel de Literatura em 1996. Uma antologia sua, com tradução de Regina Przybycien, saiu há pouco pela Companhia das Letras.
As estantes afetivas estão de volta. A desta tarde é de Luiz Ruffato, que listou as dez obras que considera as mais importantes em sua formação, não exatamente as de que mais gostou.
Ruffato nasceu no interior mineiro em 1961. A cidade é Cataguases, cenário de muitas das histórias que conta. Era jornalista em São Paulo até se dedicar exclusivamente à literatura. Uma década atrás, com “Eles Eram Muitos Cavalos”, venceu o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional. Desde 2005, publica a série Inferno Provisório, que apresenta a cartografia do proletário e da (sobre) vida que leva. O quinto e último volume saiu este ano, “Domingos Sem Deus”.
"Memórias Póstumas de Brás Cubas" -Machado de Assis
"Formação da Literatura Brasileira" - Antônio Cândido
"Contos" - Luigi Pirandello
"Contos" - Anton Tchekov
"As Ilusões Perdidas" - Honoré de Balzac
"As Flores do Mal" - Charles Baudelaire
"O Som e a Fúria" - William Faulkner
"Lições de Filosofia da História Universal" - Friedrich Hegel
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