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Para quem não leu nada sobre o que se passou na Flip: o campeão de audiencia foi um escritor português nascido em Angola que assina com minúsculas e era até então pouco conhecido por aqui --talvez seja melhor dizer que era um desconhecido completo. Levou a plateia às lágrimas, algo que, segundo jornalistas portugueses com quem conversei depois, ele faz muito bem, há tempos. A Livraria da Vila, livraria oficial da Flip com loja na Tenda dos Autores, divulgou quais foram os mais vendidos durante o evento. E quem está em primeiro e em segundo? Pois é, ele mesmo, valter hugo mãe, com "A Máquina de Fazer Espanhóis" (Cosac) e "O Remorso de Baltazar Serapião" (Editora 34). O sucesso das mesas leva à compra imediata de livros pela plateia. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolellis, outro que protagonizou mesa bastante comentada, ficou em terceiro, com "Muito Além do Nosso Eu" (Companhia das Letras). A argentina Pola Oloixarac, a "musa" da Flip, que dividiu o palco com o português campeão, tem o seu "As Teorias Selvagens" (Benvirá) em quarto lugar. David Byrne, com "Os Diários de Bicicleta" (Amarilys), ocupa a quinta colocação. E Luiz Felipe Pondé, da mesa com Nicolellis, a sexta colocação, com "Contra um Mundo Melhor - Ensaios de Afeto" (Leya). Surpresa para mim foi ver em sétimo "Os Verbos Auxiliares do Coração" (Cosac), do húngaro Péter Esterházy. Foi uma das minhas mesas preferidas, e Esterházy merece ser lido, sem dúvida. Mas não achei que estaria entre os primeiros em vendas. "Se Eu Fechar os olhos Agora" (Record), de Edney Silvestre, está em oitavo. Em nono, outro livro que não esperava: "A Tavessia do Rio" (Record), de Caryl Phillips. Gostei muito da mesa de Philips e já havia apreciado sua obra anterior, "A Margem Distante". Mas pensei que autores como ele e Esterházy, entre outros muito bons mas que tiveram menos audiencia, não estariam entre os dez primeiros lugares. Em décimo, aparece "O Viajante do Século" (Alfaguara), do argentino Andrés Neuman, que também fez parte de uma mesa elogiada e tem perfil mais discreto. Seu colega no palco ficou em décimo-primeiro, Michael Sledge, com "A Arte de Perder" (Leya Brasil), sobre a história de amor da poeta americana Elizabeth Bishop e a urbanista brasileira Lota de Macedo Soares. "A Ausência que Seremos" (Companhia das Letras), de Héctor Abad, ocupa o décimo-segundo lugar. Outra surpresa para mim: o livro e sua mesa foram de fato comoventes, mas ele falou no domingo à tarde, quando muita gente já começava a deixar Paraty. Abad escreveu sobre o pai, um médico engajado que foi morto por para-militares na Colômba dos anos 1980. A seu lado na mesa, estava Laura Restrepo, também com relato autobiográfico, "Heróis Demais", sobre o pai de seu filho que a deixou pela luta armada. Joe Sacco, com "Palestina", ficou no décimo-terceiro lugar. Perguntei números de exemplares vendidos, totais ou parciais, desta e de outras Flips, para fazer comparações. A Livraria da Vila me respondeu que não divulga essas informações. Mas diz que o mais vendido até hoje, em todas as edições da Flip, foi "Leite Derramado", de Chico Buarque, convidado em 2009. Ao jornal "Público", de Portugal, a rede divulgara durante a Flip que haviam se esgotado os 500 exemplares do livro de valter hugo mãe que ficou em primeiro. Então dá para ter uma ideia de quantos exemplares venderam os títulos que ficaram na lista. na foto acima, valter hugo mãe em sua mesa na Flip, imagem de Walter Craveiro/divulgação
Escrito por Josélia Aguiar às 17h34
Itaparica fica a meia hora de distância de Salvador. A depender do ferry boat que você pegar, pode chegar mais rápido. O mais moderno, Ivete Sangalo, leva menos que isso. O Maria Bethania, modelo antigo, gasta até 40 minutos. Quando eu era criança, ouvia falar de um escritor que morava em Itaparica. O cidadão passava o dia na praça escrevendo. Turistas o abordavam para pedir autógrafo. Alguns não sabiam exatamente quem era. “Ubaldo Dantas?”, lhe perguntou certa vez um visitante, confundindo-o com um homônimo que era prefeito de Itabuna, no sul da Bahia. Li essa história certa vez num jornal local. Era João Ubaldo, que escrevia no meio da praça “Viva o Povo Brasileiro”, considerada uma das grandes obras brasileiras de ficção dos últimos 25 anos. Ubaldo explicou na Flip, no sábado à noite, que só queria fazer um livro “grande e grosso” para “esfregar” em seu editor na época, Pedro Paulo de Sena Madureira, cujo perfil, por coincidência, saiu no domingo (no post abaixo). Outro editor, Sebastião Lacerda, lhe telefonava insistentemente para que concluísse o livro. Uma hora não houve jeito. Viajou até a ilha para buscar os originais praticamente à força. Escutei essa história não só de Ubaldo, mas do próprio Lacerda, anos atrás. Até hoje, o escritor baiano diz que quando folheia a obra tem vontade de mudar muita coisa. Em cada página. Engraçado foi quando o mediador, o escritor Rodrigo Lacerda --filho do editor Sebastião --, lhe perguntou por que suas histórias se passavam quase sempre numa ilha. Ubaldo, nascido em Itaparica, disse que não sabia bem por quê. Encontrei Ubaldo nas ruas de Paraty antes da mesa. Vi muita gente o parando para pedir foto. Mulher com bebê, poeta de rua, adolescentes. Até comentei: “Parece candidato à prefeitura de Itabuna”. Naquele trecho curto que ia do restaurante de onde saiu à Tenda dos Autores, ele me contou de um certo tio-avô chamado Neco, mulherengo, que teve 17 filhos oficiais e, segundo se dizia na ilha, mais de 70 bastardos. “Eu acho que todo mundo em Itaparica é meu primo”. Eis o escritor em sua campanha eleitoral involuntária, na foto feita por minha colega Terciane Alves, da revista "Língua Portuguesa". É minha a mão de alguém que aparece de casaco preto, entre o cordelista e a outra moça que está com celular na mão [está bem, é quase impossível ver minha mão, mas ela está ali]. 
Dois links para quem não leu ainda sobre a mesa que Ubaldo protagonizou na Flip: neste aqui, você encontra o texto que fiz para a Folha; neste, o que meu colega Fabio Victor fez para a Folha Online. O escritor e sua ilha: com esse mote, vou fazer outros posts daqui para a frente.
Escrito por Josélia Aguiar às 15h33
No perfil do Pedro Paulo de Sena Madureira (post abaixo), conto que, entre outros motivos, uma tradução que fez do poeta francês Saint-John Perse (1887-1975) o levou um dia a ser assistente de Antonio Houaiss, na década de 1970.
Perguntei se ainda tinha a edição. Ele me mostrou o volume, assinado por Bruno Palma, padre de quem foi assistente. Pedi para que escolhesse um poema para pôr no blog. Ele me indicou dois. Um mais curto, outro mais longo. Elogios - XVIII Agora deixai-me, vou sozinho. Vou sair, pois tenho o que fazer: um inseto me espera para tratarmos. Dá-me alegria o grande olho de facetas: anguloso, imprevisto, como o fruto do cipreste. Ou então tenho uma aliança com as pedras azul-venadas: e vós me deixais igualmente, sentado, na amizade de meus joelhos
Marimarcas II - Estrofe IX
...Estreitas são as naus, estreito nosso leito. Imensa a extensão das águas, mais vasto nosso império Nas câmaras fechadas do desejo. Entra o Verão, que vem de mar. E só ao mar diremos Quão estrangeiros fomos nas festas da Cidade, e que astro montante das festas submarinas Veio uma noite, no nosso leito, farejar o leito do divino. A terra próxima nos traça em vão sua fronteira. A mesma vaga pelo mundo, uma só vaga desde Troia Rola sua anca até nós. Muito ao largo, longe de nós, este sopro foi imprimindo outrora... E certa noite o rumor foi grande pelas câmaras: a própria morte, a som de búzios, não se faria ouvir! Amai, ó casais, as naus; e o alto mar pelas câmaras! A terra chora uma noite seus deuses, e o homem caça feras fulvas; as cidades se desgastam, as mulheres sonham... Que haja sempre à nossa porta Esta alvorada imensa que mar se chama --escol de asas e erguer de armas, amor e mar de mesmo leito, amor e mar no mesmo leito -- e este diálogo ainda pelas câmaras: Éloges - XVIII A présent laissez-moi, je vais seul. Je sortirai, car j´ai affaire: un insecte m´attend pour traiter. Je me fais joie du gros oeil à facettes: anguleux, imprévu, comme le fruit du cyprès. Ou bien j`ai une alliance avec les pierres veinées--bleu: et vous me laissez également, assis, dans l`amitié de mes genoux. Amers II - Strophe IX ... Étroits sont les vaisseaux, étroite notre couche. Immense l´étendue des eaux, plus vaste notre empire Aux chambres closes du désir. Entre l´Été, qui vient de mer. À la mer seule, nous dirons Quels étrangers nous fûmes aux fêtes de la Ville, et quel astre montant des fêtes sous-marines S´en vint un soir, sur notre couche, flairer la couche du divin. En vain la terre proche nous trace sa frontière. Une même vague par le monde, une même vague depuis Troie Roule sa hanche jusqu´à nous. Au très grand large loin de nous fut imprimé jadis ce souffle... Et la rumeur un soir fut grande dans les chambres: la mort elle-même, à son de conques, ne s´y ferait point entendre! Aimez, ô couples, les vaisseaux; et la mer haute dans les chambres! La terre un soir pleure ses dieux, et l´homme chasse aux bête rousses: les villes s´ussent, les femmes songent... Qui´il y ait toujours à notre porte Cette aube immense appelée mer --élite d´ailes el levée d´armes, amour et mer de même lit, amour et mer au même lit-- et ce dialogue encore dans les chambres: Leia poemas de Joan Brossa, Jorge Luis Borges, Heinrich Heine, Nicolás Guillén, Ferreira Gullar.
Escrito por Josélia Aguiar às 21h37
Em trânsito, sem ter como postar, deixo aqui meu perfil do editor Pedro Paulo de Sena Madureira que saiu no domingo na "Ilustríssima". Quando voltar, publico mais coisas sobre Flip. PERFIL
Pedro Paulo, longe de Paraty
Ou eles não usam gravata-borboleta
RESUMO Um dos mais proeminentes editores brasileiros entre a década de 1970 e o começo dos anos 2000, Pedro Paulo de Sena Madureira marcou época com um estilo que aliava erudição a tino comercial e extravagância. Caiu em descrédito após a quebra do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, de quem era parceiro.
Paulo Monteiro
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JOSÉLIA AGUIAR
TERNO, GRAVATA-BORBOLETA, echarpe, chapéu-panamá no verão e de feltro no inverno. De bengala, nos últimos anos. Nos bolsos, celular, agenda, carteira, isqueiro, dois maços de cigarro e uma piteira dada por Marguerite Duras (1914-1996). O figurino é esse, até para passear pelo bairro paulistano onde mora, Higienópolis. Faz calor, e Pedro Paulo de Sena Madureira, 63, me recebe de bermuda e camiseta. O espumante catalão chega com pedras de gelo, "como fazem as ricas americanas", diz, rindo. "Ninguém de fora de casa me vê vestido assim. Só estou assim porque você é baiana." Aristocráticos, cosmopolitas, liberais, com tino para o comércio: assim são os Sena Madureira, na descrição do próprio Pedro Paulo. Orgulha-se da mitologia do clã: judeus até o século 14, tornam-se cristãos-novos com a Inquisição. Um ramo parte de Lisboa para o Recôncavo Baiano, onde toma posse de uma sesmaria em 1598. O mais ilustre é o coronel Sena Madureira, tio-avô que lutou na Guerra do Paraguai (1864-1870) e nomeia cidade no Acre. Mas é a avó Alice, professora de história no Rio, a que parece mais importante: "Ela foi Chanel antes de Chanel", define. A maioria das frases que dizia Alice parece ter saído do editor, e já não se sabe mais o quanto é recriação do próprio: ""Pedro Paulo, somos privilegiados, ela lhe disse certa vez. Despencamos da mais elegante e culta aristocracia para a ala dos desvalidos. ""E onde está o privilégio, vovó? ""Não tivemos de fazer escala na classe média.
HORROR À MEDIANIA Esteta com horror à mediania, Pedro Paulo é um desses poetas do decadentismo, do fim-de-século inglês ou francês. Mas nascido no Rio de 1950. Na casa da avó Alice, leu na adolescência toda a Bibliothèque de la Pléiade, coleção de clássicos da Gallimard. Desde então, tem o hábito de anotar as leituras numa caderneta ""o número alcança hoje os 150 volumes por ano, mas já foi maior. Aprendeu cedo a falar francês, inglês e espanhol. Chegou aos 17 anos sem saber o que ia fazer da vida. Pensou que podia ser diplomata e prestou vestibular para direito, em 1967. Passou, mas só frequentaria o curso por três meses. O episódio que mudou sua vida é narrado com solenidade. Eram 11 da noite de uma quarta-feira. Saiu do cine Paissandu para se sentar com os amigos num bar na esquina da rua Senador Vergueiro, no Flamengo. Na mesa estava um jovem sete anos mais velho: Leonardo Fróes, que chegara da Europa e assumira a direção da Bruguera, editora espanhola que vendia em bancas do subúrbio histórias de amor, suspense ou caubói. Na manhã seguinte, veio o convite para ser assistente de Fróes. Enfim, descobria sua vocação. Quase dois anos depois, lê numa noite o Evangelho de São João, uma edição francesa da Bíblia de Jerusalém traduzida pelos dominicanos de Paris. "Aquilo me deixou completamente transtornado", diz. Ninguém entendeu: pediu demissão e foi morar com os dominicanos no Rio. Decidiu depois radicalizar a experiência: se juntou aos beneditinos da Bahia. Foram dois anos no claustro. Depois de sair do mosteiro, outro golpe de talento. Por conta de uma tradução do poeta francês Saint-John Perse (1887-1975), é chamado por Antonio Houaiss para ser seu assistente na preparação da "Grande Enciclopédia Mirador". Aos 20 e poucos, convivia com Otto Maria Carpeaux, Afonso Arinos de Melo Franco, Francisco de Assis Barbosa, Alberto Passos Guimarães, Francisco Casa Nova. A temporada na clausura não o tornara carola. Naquele começo dos anos 70, ia ter com intelectuais equilibrando-se sobre tamancos holandeses e exibindo o umbigo que saltava da calça batique. O namorado era integrante do grupo performático Dzi Croquettes.
EXTRAVAGANTE A extravagância, mas também a erudição e humor, são as assinaturas lembradas em toda editora em que passou: o extenso currículo tem escalas na Bruguera, na Vozes e na Rocco, entre outras. Numa época em que os fundadores das editoras eram também seus diretores editoriais, foi o primeiro que, não sendo herdeiro, ocupou o posto com projeção ""na Nova Fronteira, de Carlos Lacerda (1914-1977). Sabido na mesma proporção em que é falante, Pedro Paulo cultivaria mais desafetos não fosse sua fineza. "Pepê é adorável", derrama-se o escritor Fernando Morais, artífice da transferência do editor para São Paulo. Na época, ele era secretário de Cultura do governo Quércia (1987-1991), e Pedro Paulo mudou-se para a cidade para cuidar das edições do governo. A única vez que brigaram foi quando Pedro Paulo informou a uma coluna social que publicariam "Os Versos Satânicos", de Salman Rushdie. "Ele negou que a notícia tivesse vindo dele. Mas conheço Pedro Paulo; sempre teve trânsito com colunistas", diz Morais. Antes de ficar pronto, o livro teve de ser cancelado, diante da reação da comunidade islâmica. Fernando Nuno, editor sob comando de Pedro Paulo na Girafa, recorda uma rotina de muitas conversas, que terminavam com vinho e ópera: "Era uma editora em que se ria muito. E se trabalhava pouco. Não sobrava um minuto, com tantas reuniões", recorda. Não à toa, a empresa tinha por mote "pés no chão, cabeça nas nuvens". Logo os sócios majoritários escalariam um interventor. "Ele domina a arte de editar", define o senador José Sarney (PMDB-AP), que foi seu autor.
EMPADINHA Pedro Paulo criou uma persona folclórica na São Paulo da década de 1990. Seus palpites ajudaram a formatar o nome e o cardápio do Nabuco, badalado bar de que foi sócio. "Como assim não vai ter empadinha? É inadmissível", disse ao sociólogo Carlos Alberto Dória, um de seus parceiros na empreitada. A cozinha preparava um certo "bacalhau Sena Madureira em seu leito de espinafres". Afora as criações gastronômicas, Pedro Paulo ajudou a estabelecer o departamento editorial da Siciliano, então rede de livrarias, antes de fundar a Girafa. A grande experiência editorial, no entanto, é aquela que começou na Nova Fronteira em 1976. Ao lado dos filhos de Lacerda, ambicionou transformar a empresa na Gallimard brasileira. A erudição nunca o afastou de decisões editoriais com apelo de vendas. Thomas Mann figurava ao lado de Agatha Christie no catálogo da Nova Fonteira dos anos 1980, que consagrou também o chamado "best-seller europeu", em títulos como "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, e "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera. Com facilidade para detectar potenciais sucessos editoriais, fez nascer obras que ocuparam por meses as listas de mais vendidos: o faro o conduziu a "E por Falar em Amor", de Marina Colasanti, e "Só É Gordo Quem Quer", de João Uchôa Jr. Por indicação de Drummond, lançou Adélia Prado. Descobriu uma autora em Lya Luft.
OUTONO Do período na nova Fronteira, ele diz guardar saudade ""melancolia, não. Há quase cinco anos, Pedro Paulo vive seu outono, depois do escândalo financeiro que se seguiu à falência do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira. A carreira de editor era dividida desde os anos 1990 com a de vice-presidente da Brasil Connects, do ex-banqueiro, que promovia grandes exposições de artes plásticas. O posto na direção fez com que seus bens fossem bloqueados. As editoras não demoraram para lhe virar as costas. Em casa, abatido e medicado, é cuidado por Carlos Henrique, seu companheiro há três décadas, e pela diarista Silvia. Ocupa-se agora de uma antologia de poemas inéditos, "Tenho Medo", e já faz planos para uma nova editora. "Expliquei a um grande investidor que fazer uma editora custava, em um ano e meio, R$ 2 milhões. Ele me disse: "Só isso? É pouco dinheiro'", relembra. "Eles não conseguem raciocinar nessa escala, só acima de R$ 150 milhões." Diz que vive de aulas que dá para madames e da ajuda dos "bons amigos fiéis". De casa, sai para passeios curtos, visitas médicas e almoço com os amigos. Não foi convidado nem vai por conta própria à Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), QG do "grand monde" editorial nesta semana. Diz que tem certa preguiça de se deslocar tanto. Altivo, ao comentar o encontro das letras, lembrou o dia em que, sentado num café parisiense, recebeu das mãos de Marguerite Duras a piteira que ainda hoje leva no bolso. "Eventos como a Flip dão a quem os frequenta esta sensação de andar em Paris: você pode encontrar o escritor de que gosta na mesa do lado." Os quatro cachorros presos na cozinha começam a latir. A música já parou de tocar. Como se a mudança de trilha exigisse uma confidência, Pedro Paulo diz: "Nunca me arrependi de nada na minha vida. Mas me arrependo de ter ido embora da Nova Fronteira. Jamais deveria ter saído. Estava no esplendor. Foi uma imprudência". Pedro Paulo chora. Carlos Henrique recolhe o espumante. Conversa encerrada.
Escrito por Josélia Aguiar às 10h50
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Josélia Aguiar é jornalista, especializada na cobertura de livros. Assina a coluna Painel das Letras, publicada aos sábados no caderno "Ilustrada".
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