A pedido do blog, Paulo Henriques Britto, tradutor de Elizabeth Bishop, escolheu o poema “Cirque d´Hiver” para pôr aqui nesta seção.

Está no volume “O Iceberg Imaginário e Outros Poemas”, por ora esgotado nas livrarias, mas que se pode encontrar em sebos.

Faz tempo que a seção  não é atualizada, e na semana que começa hoje vou tentar retomá-la com várias compensações.

Amanhã tem Rilke, traduzido por Angela Lago.

 

Cirque d´Hiver

 

É um brinquedo de corda digno de um rei

de uma outra era: cavalo e bailarina.

Um cavalo de circo, de olhos negros,

branco no pêlo e na crina

Sobre ele vai montada a bailarina.

 

Na ponta dos pés, ela rodopia.

Tem um ramo de flores artificiais

na saia e no corpete de ouropel.

Sobre a cabeça, traz

um outro ramo de flores artificiais

 

A cauda do cavalo é puro Chirico.

É formal e melancólica sua alma.

Ele sente em seu dorso a perna leve

da bailarina calma

em torno da haste que a perfura, corpo e alma,

 

e lhe atravessa o corpo, saindo por fim

sob seu ventre como uma chave de lata.

Ele dá três passos, faz uma mesura,

anda mais um pouco, dobra uma das patas,

anda, estala, pára e olha para mim.

 

A dançarina, a essa altura, está de costas.

O cavalo é o mais arguto dos dois.

Entreolhamo-nos, com certo desespero,

e dizemos depois:

“É, até aqui chegamos nós dois”.

 

Cirque d´Hiver

 

Across the floor flits the mechanical toy,

fit for a king of several centuries back.

A little circus horse with real white hair.

His eyes are glossy black.

He bears a little dancer on his back.

 

She stands upon her toes and turns and turns.

A slanting spray of artificial roses

Is stiched across her skirt and tinsel bodice.

Above her head she poses

another spray of artificial roses.

 

His mane and tail are straight from Chirico.

He has a formal, melancholy soul.

He feels her pink toes dangle toward his back

Along the little pole

that pierces both her body and her soul

 

and goes through his, and reappers below,

under his belly, as a big tin key.

He canters three steps, then he makes a bow,

canters again, bows on one knee,

canters, then clicks and stops, and looks at me.

 

The dancer, by this time, has turned her back.

He is the more intelligent by far.

 

Facing each other rather desperately –

his eye is like a star –

we stare and say, “Well, we have come this far.”

 


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