Painel das Letras

por Josélia Aguiar

 

Domingo no Parque: prêmio não é ciência exata

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“Eu não acredito em prêmios.”

Foi a frase imprudente que disse ontem à noite a dois dos finalistas que ficaram de fora dos três primeiros lugares do Prêmio Portugal Telecom (este post aqui, mais cedo)

A frase, ótima para ter audiência em festa e em blog, pode servir de consolo sempre que não se é premiado. É ótima também para quem gosta de distorcer o que ouve ou lê, então bom proveito aí.

Juro que não acredito em prêmios, mas que eles existem, existem.

Prêmios não são ciência exata, assim como não é a literatura (e a história também não). Mesmo as ciências exatas não são tão exatas assim, como diria meu orientador.

Você tem um conjunto de pessoas para decidir o que é melhor ou mais importante entre o que leram.

Existem muitos parâmetros para isso e a história de cada um do júri conta muito: que autores e livros são importantes em sua formação, que tipo de literatura mais acompanha (no Brasil e no exterior), a qual escola da crítica literária se filia – sua análise é formalista? é vinculado aos estudos culturais? frequentou a USP, a Unicamp, a PUC do Rio? Até o tipo de personalidade pode interferir.

Enfim, há muitos parâmetros, e a subjetividade permeia tudo. Não quero dizer que não há seriedade ou profissionalismo. Sim, há, em grau maior ou menor, a depender do prêmio. Claro que alguns podem estar mais sujeitos a pressões e influências além dos tais parâmetros que citei no parágrafo anterior.

O leitor comum quer saber apenas: o livro é bom? A coisa parece simples, mas não é.

Leia os premiados, leia os finalistas, leia também aqueles que não entraram nas listas de premiação. E quanto mais conhecer o prêmio – quem o organiza, quem compõe o júri, qual o histórico de premiação— mais poderá compreender os resultados.

Participei já de júris e conversei com jurados de diversos prêmios. Às vezes por um triz alguém vai para o segundo, e não o primeiro lugar, por um triz alguém deixa de ficar entre os três primeiros lugares, por um triz sai da lista de finalistas. E quando há empate?

Para quem não viu, recomendo o documentário “Uma Noite em 67”, de Ricardo Calil e Renato Terra, sobre os bastidores do festival de música em que saiu vencedora “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam. Concorriam, entre outras, “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil,  “Alegria Alegria*”, de Caetano Veloso e "Roda Viva", de Chico Buarque.

Às vezes só com o tempo é que se pode escolher o vencedor.

PS.: Aposto que meu amigo Fernando, mais conhecido como "francês", vai vir aqui elogiar "Ponteio".

*Chamei antes a música de "Sem Lenço Sem Documento"; e me lembro de ter visto ja grafada como "Caminhando Contra o Vento", será?

Escrito por Josélia Aguiar às 15h02

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Os vencedores e uma estante afetiva prometida

Eis os vencedores do Prêmio Portugal Telecom 2011, anunciados ontem.

 

1.

"Passageiro do Fim do Dia" se passa num trajeto de ônibus de um personagem que vai até o subúrbio encontrar a namorada. Com o livro, Rubens Figueiredo, conhecido tradutor de clássicos russos, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura.

 

2

 

 

"Uma Viagem à Índia" é um Lusíadas do século 21, com estrutura que evoca a obra de Camões. Já venceu vários prêmios europeus. Seu autor, Gonçalo M. Tavares, obteve o primeiro lugar no Portugal Telecom 2007 com "Jerusalém".

 

3.

Em "Minha Guerra Alheia",  de teor autobiográfico, Marina Colassanti, autora com mais de 40 livros publicados, entre poesia, prosa e infantis, conta sua vida de menina na Itália da Segunda Guerra Mundial.

 

***

Quem acompanha o blog com alguma frequência deve conhecer a seção "Os dez mais"  (vá por aqui para ver o que já publiquei), em que autores elegem sua estante afetiva -- topa a brincadeira quem consegue esquecer todas as ressalvas que se costuma fazer a um tipo de seleção estapafúrdia como essa, de livros preferidos, algo tão difícil de reduzir a apenas dez.

Leitores escrevem sugerindo esse ou aquele autor e preciso dizer: há os que pedem muitas desculpas mas preferem não responder. Insisto depois de um tempinho, mas às vezes não dá mesmo.

Então se você sentir falta de alguém aqui será por um dos três motivos: ou o autor não quis fazer a lista, ou o autor disse que vai fazê-la mas ainda não a fez. E o terceiro motivo? O telefonema ou e-mail (ainda) não foram respondidos. Há sempre de se considerar que a existência é atravessada por infortúnios causados pelos meios de comunicação quando pifam.

Ainda hoje vou fazer um post grande sobre prêmios, mas encerro este aqui dizendo que escutei do simpático Rubens Figueiredo, vencedor de ontem, a promessa de que vai sim fazer a sua lista dos dez mais, tão loga cumpra tarefas que estão na frente.

 Atualização às 14h40 - Há um post novo sobre Rubens Figueiredo no blog da Cosac Naify, para quem ele traduziu diversas obras, entre as quais a recente reedição de "Guerra e Paz". 

Escrito por Josélia Aguiar às 08h23

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Prêmio Portugal Telecom: os dez finalistas

Será hoje à noite o anúncio do vencedor, do segundo e terceiro lugares.

Aqui, um brevíssimo resumo dos concorrentes.

 

"Uma Viagem à Índia" é um Lusíadas do século 21, com estrutura que evoca a obra de Camões. Já venceu vários prêmios europeus. Seu autor, Gonçalo M. Tavares, obteve o primeiro lugar no Portugal Telecom 2007 com "Jerusalém".

 

"Passageiro do Fim do Dia" se passa num trajeto de ônibus de um personagem que vai até o subúrbio encontrar a namorada. Com o livro, Rubens Figueiredo, conhecido tradutor de clássicos russos, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura.

 

 

"Ribamar" é um misto de romance, memória e ensaio sobre o pai. Tem em "Cartas ao Pai", de Franz Kafka, um grande referencial. Seu autor, José Castello, cronista, biógrafo e ensaísta, venceu o Jabuti deste ano na categoria romance.

 

"Cidade Livre" é parte do "quinteto de Brasília", como diz seu autor, João Almino. Trata da construção da cidade, pelas lentes de um narrador em diferentes tempos. A obra venceu o prêmio gaúcho Zaffari & Bourbon, concedido a cada dois anos.

"Em Trânsito", livro de poemas de Alberto Martins: do trajeto de casa ao trabalho, o poeta vê a existência e a passagem do tempo em cenas cotidianas, como a draga no leito do rio e o trem de passageiros. Martins obteve, com "História dos Ossos", o segundo lugar na edição de 2006 do Portugal Telecom.

 

"O Homem Inacabado", outro livro de poemas a concorrer este ano: Donizete Galvão trata, de um lado, de enclausuramento e desânimo; como contraponto, as pequenas experiências do cotidiano vistas por um novo olhar. 

 

"Modelos Vivos", de Ricardo Aleixo, reúne poemas em que técnicas e gêneros artísticos diversos são mobilizados, como caligrafia, pirogravura, epigramas, canção, videoperformance. O jogo, uma das características da obra de Aleixo, é borrar os limites que separam linguagens.

 

"Nada a Dizer", de Elvira Vigna, trata de um triângulo amoroso pelo ângulo da mulher que é traída. O casal, de meia-idade, viveu a revolução sexual. No outro vértice, há uma moça vinte anos mais jovem e "burguesa", para a geração de protagonistas.

 

Em "Minha Guerra Alheia",  de teor autobiográfico, Marina Colassanti, autora com mais de 40 livros publicados, entre poesia, prosa e infantis, conta sua vida de menina na Itália da Segunda Guerra Mundial.

 

Em "As Três Vidas", de João Tordo, um narrador sai do Alentejo, passa por Lisboa e Nova York e, entre uma paixão e segredos de família, testemunha parte da história do século 20. Com o livro, Tordo venceu o prêmio português José Saramago em 2009.

 

Escrito por Josélia Aguiar às 09h01

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Os dez mais, por José Castello

A estante afetiva desta manhã é de José Castello.
Com seu "Ribamar", já vencedor do Jabuti  na categoria romance, é um dos dez finalistas ao Prêmio Portugal Telecom, a ser anunciado amanhã à noite.
Nascido no Rio de Janeiro em 1951 e hoje morador de Curitiba, Castello é jornalista e crítico literário, cronista de "O Globo", autor de ensaios biográficos sobre Vinicius de Moraes ("O Poeta da Paixão") e João Cabral de Melo Neto ("O Homem Sem Alma") e de livros de ficção em que se combinam também ensaio e biografia, como "Fantasma". 
Aqui está sua estante afetiva.
“Robinson Crusoé” - Daniel Defoe

“Museu de  Tudo” - João Cabral de Melo Neto

 “A Paixão Segundo G.H.” - Clarice Lispector

 “Harmada” - João Gilberto Noll

 “O Livro do Desassossego” - Fernando Pessoa

 “O Processo” - Franz Kafka

“Ensaios” - Michel de Montaigne

“Bartleby e Companhia” - Enrique Villa-Matas

“O Coração das Trevas” - Joseph Conrad

“As Cinco Elegias” - Vinicius de Moraes

 

Sábado passado postei aqui a lista de outro concorrente, João Almino.

 

Publiquei as estantes afetivas de Cristovão Tezza,  Thiago de MelloMilton HatoumFrancisco AlvimMoacyr Scliar, Michel LaubCarola SaavedraDaniel GaleraRicardo LísiasJoca TerronAndré Sant´AnnaAntonio PrataRonaldo Correia de Brito, Paulo Henriques Britto, Marcelino Freire.

Escrito por Josélia Aguiar às 08h10

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Um poema: Lúcio Cardoso

 

Um Lúcio Cardoso inédito, com mini-contos sobre crimes, é descoberto em arquivos e estudado agora pela jornalista e pesquisadora Valéria Lamego, como contei num texto que saiu faz algumas semanas na Ilustrada (aqui, se assinante da Folha ou do UOL).

Os dois volumes de inéditos que Valéria organiza são parte de uma série de edições e eventos que começam a ser planejados para 2012, centenário de nascimento do escritor mineiro, radicado no Rio de Janeiro, uma das vozes mais originais na literatura brasileira de meados do século 20.

Saiu já por esses dias o volume de "Poesia Completa" que Ésio Macedo Ribeiro preparou para a Edusp, uma edição crítica que merece muitos elogios em suas mais de mil páginas. De lá, retiro "A Rua Tem Três Tempos", sugestão da Valéria Lamego.

 

A rua tem três tempos,

o primeiro no inverno.

De que lado amanhece, não sei,

há uma vidraça, e brilha,

e o tempo envelhece.

Somos a hora, e a luz

é o que nos devora.

De que lado anoitece, eu sei.

Há uma cruz crescendo para os lados do mar.

 

***

A linda foto lá em cima, de Lúcio em Ipanema nos anos 1940, é do cenógrafo e diretor Eros Martim Gonçalves.

***

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Rainer Maria Rilke, Tomas Tranströmer.

Vá por aqui para ler um pouquinho das greguerias de Ramón Gómez de La Serna.

Escrito por Josélia Aguiar às 12h13

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O poeta sem orixás

 

 

Vinicius nunca foi a uma festa de candomblé, muito menos participou de ritual sagrado, diz a atriz baiana Gessy Gesse, 72, “a morena flor” com quem esteve casado de 1969 a 1976*. “Ele adorava conversar com Mãe Menininha, pois admirava sua sabedoria. Mas só. O resto é folclore.” A começar pelo que disseram da cerimônia de casamento. “Fizemos um ritual cigano, e não uma cerimônia de candomblé, como espalharam.”


Essa é uma das desmistificações que Gessy faz no livro que espera concluir este ano, ainda sem editora, sobre sua trajetória do Cinema Novo às oficinas de teatro para idosos que coordena hoje. O poeta ocupa parte substancial da obra. Da vida que tiveram à beira da praia de Itapuã, diz se lembrar de Vinicius fazendo versos mergulhado na banheira da casa.

*** 

A nota, que publico aqui com acréscimos, e a caricatura de Siqueira saíram na "Painel das Letras" de ontem (aqui, se assinante da Folha ou do UOL).

*Errei a data na nota impressa. Ficaram casados até 1976.

 

Escrito por Josélia Aguiar às 11h54

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Jos�lia Aguiar Josélia Aguiar é jornalista, especializada na cobertura de livros. Assina a coluna Painel das Letras, publicada aos sábados no caderno "Ilustrada".


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