Uma senhora historiadora

Contam-me agora que hoje é o dia da saudade.

Acabara de ler esse trechinho aqui da dona Katia de Queirós Mattoso, uma senhora historiadora que morreu faz um ano este mês, aos 78:

"Viajantes e navegadores insistem na generosidade da baía, que oferece aos veleiros e aos vapores a variedade amistosa de ventos e a proteção de suas ilhas – uma vez ultrapassada a barra, a baía é já um porto, de tão grande chegaram a afirmar que poderia conter todas as esquadras do mundo".

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Faz duas décadas que saiu pela Nova Fronteira esse livro, uma versão um pouco mais leve da tese que defendeu na Sorbonne, a mesma que lhe fez merecer a primeira cátedra de História do Brasil daquela instituição--depois que se aposentou, a vaga foi ocupada por Luiz Felipe de Alencastro.

Está esgotado o livro, um exemplar nos sebos vale uma pequena fortuna. Até imagino a razão de ter desaparecido não só das prateleiras, mas dos assuntos; a historiadora greco-baiana esteve, estava por demais distante do círculo de pensadores do país,e até na contra-mão de algumas ideias consagradas, as mesmas que já enfrenta na introdução.  

Quem convive um pouco comigo decerto me ouviu elogiar esse livro mais de uma vez: Em suas mil páginas, Katia Mattoso explica, enfim, o tal "enigma baiano", assim denominado período de imobilismo que a Bahia atravessou na virada do século 19 para o 20. Fortunas se perderam, só sobraram a prataria e a mobília de madeira nobre. Para onde foi o dinheiro? Muita gente tentou responder antes dela, mas com êxito apenas parcial, quando houve algum.

Não pense, leitor, que o livro é chato, que só interessa a quem estuda Bahia ou economia, ou quem tem algum quebranto por temas como escravidão ou século 19. É como filme de época, pintura de grande painel: você se sente  dentro daquela cidade e daquele tempo. E há certo clima detetivesco, afinal, como é mesmo que Katia Mattoso descobre tudo isso? Entre suas principais fontes, incluem-se os testamentos, inventários e cartas de alforria que encontrou em algumas décadas de pesquisa.

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Este post inaugura uma nova categoria do blog, "História Etc", para tratar de livros de história, mas não só, também biografias, fotografia, economia (!), assuntos internacionais (!), "humanidades" --tenho em casa uma pequena porém invulgar coleção de livros de viajantes, desde os tempos do Pausânias, da rota da seda do Marco Polo e do Michel Leiris na África. Em 2012, quero comentar sobre os títulos que compro e que quase nunca menciono aqui. Promessa de ano novo e de volta do blog a todo vapor.