Painel das Letras

por Josélia Aguiar

 

Um poema

Um poema: Jules Supervielle

E agora, também a tempo do Natal, deixo a tradução que Drummond fez para esse lindíssimo poema de Jules Supervielle. Está no volume "Poesia Traduzida", da Cosac Naify, que reúne versos trazidos para o português pelo nosso poeta.

 

Rostos

 

Baralho a contragosto

Como cartas os rostos,

E todos me são caros.

Às vezes algum tomba,

Inútil procurá-lo.

Desaparece a carta.

Nada sei a respeito.

Entretanto era um rosto

Que eu amava, e tão belo.

Baralho as outras cartas.

O inquieto do meu quarto,

Ou seja, o coração,

A arder continua,

Não já por essa carta,

Por outra em seu lugar.

É um novo semblante.

E o baralho, completo,

Mas sempre desfalcado.

Eis tudo quanto sei,

E ninguém sabe mais.

 

Figures

 

Je bats comme des cartes

Malgré moi des visages,

Et, tous, ils me sont chers.

Parfois l´un tombe à terre

Et j´ai beau le chercher

La carte a disparu.

Je n´en sais rien de plus.

C´était un beau visage

Pourtant, que j´aimais bien.

Je bats les autres cartes.

L´inquiet de ma chambre,

Je veux dire mon coeur,

Continue à brûler

Mais non pour cette carte,

Qu´une autre a remplacée:

C´est un nouveau visage,

Le jeu reste complet

Mais toujours mutilé.

C´est tout ce que je sais,

Nul n`en sait davantage.

 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Rainer Maria Rilke, Tomas Tranströmer, Lúcio Cardoso e Wislawa Szymborska.

Vá por aqui para ler um pouquinho das greguerias de Ramón Gómez de La Serna.

 

Escrito por Josélia Aguiar às 10h32

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Um poema: Wislawa Szymborska

A seção "Um Poema" também está de volta --ufa!-- depois de demorados dois meses de quiproquós técnicos aqui no blog. A tempo do Natal.

Primeiro, publico um poema da polonesa Wislawa Szymborska, Nobel de Literatura em 1996. Uma antologia sua, com tradução de Regina Przybycien, saiu há pouco pela Companhia das Letras.

 

Retornos

 

Voltou. Não disse nada.

Mas estava claro que teve algum desgosto.

Deitou-se vestido.

Cobriu a cabeça com o cobertor.

Encolheu as pernas.

Tem uns quarenta anos, mas não agora.

Existe --mas só como na barriga da mãe

na escuridão protetora, debaixo de sete peles.

Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase

na cosmonáutica metagaláctica.

Por ora dorme, todo enroscado.

 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Rainer Maria Rilke, Tomas Tranströmer, Lúcio Cardoso.

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Escrito por Josélia Aguiar às 21h56

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Um poema: Lúcio Cardoso

 

Um Lúcio Cardoso inédito, com mini-contos sobre crimes, é descoberto em arquivos e estudado agora pela jornalista e pesquisadora Valéria Lamego, como contei num texto que saiu faz algumas semanas na Ilustrada (aqui, se assinante da Folha ou do UOL).

Os dois volumes de inéditos que Valéria organiza são parte de uma série de edições e eventos que começam a ser planejados para 2012, centenário de nascimento do escritor mineiro, radicado no Rio de Janeiro, uma das vozes mais originais na literatura brasileira de meados do século 20.

Saiu já por esses dias o volume de "Poesia Completa" que Ésio Macedo Ribeiro preparou para a Edusp, uma edição crítica que merece muitos elogios em suas mais de mil páginas. De lá, retiro "A Rua Tem Três Tempos", sugestão da Valéria Lamego.

 

A rua tem três tempos,

o primeiro no inverno.

De que lado amanhece, não sei,

há uma vidraça, e brilha,

e o tempo envelhece.

Somos a hora, e a luz

é o que nos devora.

De que lado anoitece, eu sei.

Há uma cruz crescendo para os lados do mar.

 

***

A linda foto lá em cima, de Lúcio em Ipanema nos anos 1940, é do cenógrafo e diretor Eros Martim Gonçalves.

***

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Rainer Maria Rilke, Tomas Tranströmer.

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Escrito por Josélia Aguiar às 12h13

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Um poema: Tranströmer

Inédito em livro no Brasil, Tomas Tranströmer teve haicais traduzidos por Marta Manhães de Andrade na revista "Poesia Sempre", da Fundação Biblioteca Nacional.
Saíram na edição 25, dedicada à Suécia.

 


Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.

Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.

As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.

e a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.

Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão

Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.


 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Rainer Maria Rilke.

Vá por aqui para ler um pouquinho das greguerias de Ramón Gómez de La Serna.

Escrito por Josélia Aguiar às 15h34

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Um poema: Rilke

Faz tempo que quero postar isso aqui. Saiu na "Painel das Letras" de fins de julho (aqui, se assinante do  UOL ou da Folha). Reproduzo a nota com acréscimos:

Angela Lago, autora e ilustradora de livros infantis premiados, tem publicado no Facebook versos de Rainer Maria Rilke que começou a traduzir (como o que está no fim deste post, escolhido por ela para esta seção).

Escolhe os poemas de que mais gosta entre os cerca de 400 "mais leves", diz ela, que o poeta alemão fez em francês, nos últimos anos de vida. "Rilke havia passado dez anos escrevendo 'As Elegias de Duíno'. Imagino que esses poemas foram para ele o que são os 'Divertimentos' para os músicos", compara. 


Compartilhar as traduções pelo Facebook tem sido mais que divertimento: 
"Recebo sugestões as mais diferentes e que me enriquecem. Acabei me correspondendo com admiradores de Rilke. Assim que traduzo alguma coisa, eles me enviam outras traduções do mesmo poema em português ou outros idiomas. Tem sido um trabalho alegre e compartilhado".

O volume sai em 2012 pela coleção "Livros Iluminados", da editora Scipione. 

 

***


Água que se apressa, que corre, — água esquecida


que a distraída terra bebe,

espere um minuto na concha da minha mão,

recordação!



Claro e ligeiro amor, indiferença,

quase ausência indo embora,

entre tanto chegar e tanto partir

treme tua pouca demora.




Eau qui se presse, qui court —, eau oublieuse


que la distraite terre boit,

hésite un petit instant dans ma main creuse,

souviens-toi!

 

Clair et rapide amour, indifférence,

presque absence qui court,

entre ton trop d'arrivée et ton trop de partance

tremble un peu de séjour.


Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira GullarSaint-John Perse, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop.

Vá por aqui para ler um pouquinho das greguerias de Ramón Gómez de La Serna.


Escrito por Josélia Aguiar às 16h19

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Um poema: Elizabeth Bishop

 

A pedido do blog, Paulo Henriques Britto, tradutor de Elizabeth Bishop, escolheu o poema “Cirque d´Hiver” para pôr aqui nesta seção.

Está no volume “O Iceberg Imaginário e Outros Poemas”, por ora esgotado nas livrarias, mas que se pode encontrar em sebos.

Faz tempo que a seção  não é atualizada, e na semana que começa hoje vou tentar retomá-la com várias compensações.

Amanhã tem Rilke, traduzido por Angela Lago.

 

Cirque d´Hiver

 

É um brinquedo de corda digno de um rei

de uma outra era: cavalo e bailarina.

Um cavalo de circo, de olhos negros,

branco no pêlo e na crina

Sobre ele vai montada a bailarina.

 

Na ponta dos pés, ela rodopia.

Tem um ramo de flores artificiais

na saia e no corpete de ouropel.

Sobre a cabeça, traz

um outro ramo de flores artificiais

 

A cauda do cavalo é puro Chirico.

É formal e melancólica sua alma.

Ele sente em seu dorso a perna leve

da bailarina calma

em torno da haste que a perfura, corpo e alma,

 

e lhe atravessa o corpo, saindo por fim

sob seu ventre como uma chave de lata.

Ele dá três passos, faz uma mesura,

anda mais um pouco, dobra uma das patas,

anda, estala, pára e olha para mim.

 

A dançarina, a essa altura, está de costas.

O cavalo é o mais arguto dos dois.

Entreolhamo-nos, com certo desespero,

e dizemos depois:

“É, até aqui chegamos nós dois”.

 

Cirque d´Hiver

 

Across the floor flits the mechanical toy,

fit for a king of several centuries back.

A little circus horse with real white hair.

His eyes are glossy black.

He bears a little dancer on his back.

 

She stands upon her toes and turns and turns.

A slanting spray of artificial roses

Is stiched across her skirt and tinsel bodice.

Above her head she poses

another spray of artificial roses.

 

His mane and tail are straight from Chirico.

He has a formal, melancholy soul.

He feels her pink toes dangle toward his back

Along the little pole

that pierces both her body and her soul

 

and goes through his, and reappers below,

under his belly, as a big tin key.

He canters three steps, then he makes a bow,

canters again, bows on one knee,

canters, then clicks and stops, and looks at me.

 

The dancer, by this time, has turned her back.

He is the more intelligent by far.

 

Facing each other rather desperately –

his eye is like a star –

we stare and say, “Well, we have come this far.”

 


Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás GuillénFerreira Gullar, Saint-John Perse.


 

Escrito por Josélia Aguiar às 13h39

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Um poema: Saint-John Perse


No perfil do Pedro Paulo de Sena Madureira (post abaixo), conto que, entre outros motivos, uma tradução que fez do poeta francês Saint-John Perse (1887-1975) o levou um dia a ser assistente de Antonio Houaiss, na década de 1970.

Perguntei se ainda tinha a edição. Ele me mostrou o volume, assinado por Bruno Palma, padre de quem foi assistente. Pedi para que escolhesse um poema para pôr no blog. Ele me indicou dois. Um mais curto, outro mais longo.

 

Elogios - XVIII

 

                Agora deixai-me, vou sozinho.

                Vou sair, pois tenho o que fazer: um inseto me

espera para tratarmos. Dá-me alegria

                o grande olho de facetas: anguloso, imprevisto,

como o fruto do cipreste.

                Ou então tenho uma aliança com as pedras

azul-venadas:  e vós me deixais igualmente,

                sentado, na amizade de meus joelhos


 

Marimarcas II - Estrofe IX


                ...Estreitas são as naus, estreito nosso leito.

                Imensa a extensão das águas, mais vasto nosso

império

                Nas câmaras fechadas do desejo.

                Entra o Verão, que vem de mar. E só ao mar

diremos

                Quão estrangeiros fomos nas festas da Cidade, e

que astro montante das festas submarinas

                Veio uma noite, no nosso leito, farejar o leito

do divino.

                A terra próxima nos traça em vão sua fronteira.

A mesma vaga pelo mundo, uma só vaga desde Troia

                Rola sua anca até nós. Muito ao largo, longe de

nós, este sopro foi imprimindo outrora...

                E certa noite o rumor foi grande pelas câmaras:

a própria morte, a som de búzios, não se faria ouvir!

               Amai, ó casais, as naus; e o alto mar pelas

câmaras!

               A terra chora uma noite seus deuses, e o homem

caça feras fulvas; as cidades se desgastam, as mulheres sonham...

Que haja sempre à nossa porta

               Esta alvorada imensa que mar se chama --escol

de asas e erguer de armas, amor e mar de mesmo leito, amor

 e mar no mesmo leito --

                e  este diálogo ainda pelas câmaras:

 

 

Éloges - XVIII

                A présent laissez-moi, je vais seul.

                Je sortirai, car j´ai affaire: un insecte m´attend

pour traiter. Je me fais joie

                du gros oeil à facettes: anguleux, imprévu, comme

le fruit du cyprès.

                Ou bien j`ai une alliance avec les pierres veinées--bleu:

et vous me laissez également,

                assis, dans l`amitié de mes genoux. 

 

Amers II - Strophe IX

               ... Étroits sont les vaisseaux, étroite notre couche.

               Immense l´étendue des eaux, plus vaste notre

empire

               Aux chambres closes du désir.

               Entre l´Été, qui vient de mer. À la mer seule,

nous dirons

               Quels étrangers nous fûmes aux fêtes de la Ville,

et quel astre montant des fêtes sous-marines

               S´en vint un soir, sur notre couche, flairer la couche 

du divin.

               En vain la terre proche nous trace sa frontière.

Une même vague par le monde, une même vague depuis Troie

               Roule sa hanche jusqu´à nous. Au très grand large

loin de nous fut imprimé jadis ce souffle...

               Et la rumeur un soir fut grande dans les chambres:

la mort elle-même, à son de conques, ne s´y ferait point entendre!

             Aimez, ô couples, les vaisseaux; et la mer haute

dans les chambres!

              La terre un soir pleure ses dieux, et l´homme

chasse aux bête rousses: les villes s´ussent, les femmes songent...

Qui´il y ait toujours à notre porte

              Cette aube immense appelée mer --élite d´ailes

el levée d´armes, amour et mer de même lit, amour et mer au

même lit--

             et ce dialogue encore dans les chambres:

 

 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich HeineNicolás Guillén, Ferreira Gullar.


 

          


 

 

Escrito por Josélia Aguiar às 21h37

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Um poema: Emily Dickinson

O poema desta semana é um dos meus preferidos desde sempre.  

A tradução que reproduzo abaixo é de Manuel Bandeira. Está em "Alguns Poemas Traduzidos", volume publicado na coleção que tem a cerejinha na capa, da José Olympio. Conheci esses versos ainda criança noutra tradução, cujo autor não me lembro, por isso talvez estranhe um pouco algo da primeira estrofe. Mas é tradução de Bandeira!

Os versos originais, retirei de "Collected Poems of Emily Dickinson", edição da Gramercy Books (comprei na época pelas flores da capa).

 

Morri pela beleza, mas apenas estava

Acomodada em meu túmulo,

Alguém que morrera pela verdade

Era depositado no carneiro contíguo.


Perguntou-me baixinho o que me matara:

--A beleza, respondi.

--A mim, a verdade -- é a mesma coisa,

Somos irmãos.


E assim, como parentes que uma noite se encontram,

Conversamos de jazigo a jazigo,

Até que o musgo alcançou os nossos lábios

E cobriu os nossos nomes.


I died for beauty, but was scarce

Adjusted in the tomb,

When one who died for truth was lain

In an adjoining room.


He questioned softly why I failed?

"For beauty", I replied.

"And I for truth, - the two are one;

We brethen are", he said.


And so as kinsmen met a night,

We talked between the rooms,

Until the moss had reached our lips,

And covered up our names.

 

 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis BorgesHeinrich Heine e Nicolás Guillén.

 

Atualização 2/7, às 13h40 : um ótimo poeta me ajudou a corrigir há pouco algo que mudava tudo e era a razão de minha estranheza na primeira estrofe, que mencionei acima: no final do segundo verso, há vírgula, e não ponto. Correção feita.

 

Escrito por Josélia Aguiar às 19h01

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Um poema: Nicolás Guillén

 

Eu Ia Por Um Caminho

 

Eu ia por um caminho,

quando com a Morte dei.

Amigo! – gritou a Morte,

mas eu não lhe respondi,

mas eu não lhe respondi;

só fiquei olhando a Morte,

mas eu não lhe respondi.

 

Eu levava um lírio branco

no instante em que a Morte vi.

Me pediu o lírio, a Morte,

mas eu não lhe respondi,

mas eu não lhe respondi;

só fiquei olhando a Morte,

mas eu não lhe respondi

 

Ah, Morte,

se um dia volto a te ver,

quero conversar contigo

como um amigo;

meu lírio, sobre teu peito,

como um amigo;

sobre tua mão, meu beijo,

como um amigo,

eu, parado, te sorrindo,

             como um amigo.

 

 

Iba Yo Por un Camino 

 

Iba yo por un camino cuando con la muerte di.

 

-¡Amigo! -gritó la muerte,

pero no le respondí,

pero no le respondí;

miré no más a la Muerte,

pero no le respondí.

 

Llevaba yo un lirio blanco,

cuando con la Muerte di.

Me pidió el lirio la muerte,

pero no le respondí,

pero no le respondí;

miré no más a la Muerte,

pero no le respondí.


Ay, Muerte,

si otra vez volviera a verte,

iba a platicar contigo como un amigo;

mi lirio, sobre tu pecho,

como un amigo;

mi beso, sobre tu mano,

como un amigo;

yo, detenido y sonriente,

            como un amigo.


Os versos são do poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989).  Estão na antologia inédita "Poetas da América de Canto Castelhano", com seleção, tradução e notas de Thiago de Mello, que sai agora pela Global. 

Entre os 400 poemas de 120 autores do  volume, o poeta escolheu este de Guillén para pôr hoje nesta seção, a pedido do blog. 

Se você, leitor, não se lembra de Guillén, talvez o conheça por esta "Canção" (é o nome), gravada por Chico Buarque e Pablo Milanés (aqui, link para o youtube): "De que calada maneira/você entra por mim sorrindo,/como se fosse a primavera! (E eu morrendo.)" 

 

 

Leia poemas de Joan BrossaJorge Luis Borges e Heinrich Heine.

 

 

Escrito por Josélia Aguiar às 15h26

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Um poema: Heinrich Heine

Era para guardar os versos abaixo para a próxima semana, pois hoje seria o dia de Borges (post anterior). Mas recebi esse poema de Heinrich Heine quase ao mesmo tempo que o de Borges, e fiquei tão impressionada com sua beleza, que resolvi pôr logo aqui.

Quem o escolheu e me enviou por e-mail foi o poeta e tradutor André Vallias, que lançou por esses dias a mais abrangente antologia do autor alemão, "Heine, Hein? – Poeta dos contrários", pela Perspectiva.

 

Não me sai da memória,

Mulher, amada e linda,

Que foste minha outrora

De corpo e alma. Ainda

 

Quero-te em carne e osso;

Da alma não necessito,

Podem jogar no fosso,

Pois não me falta espírito.

 

Corto minh’alma ao meio:

Assopro-te a metade,

Te abraço, então seremos

Corpo e alma de verdade.

  


Ich kann es nicht vergessen,

Geliebtes, holdes Weib,

Daß ich dich einst besessen,

Die Seele und den Leib.

 

Den Leib möcht’ ich noch haben,

Den Leib so zart und jung;

Die Seele könnt Ihr begraben,

Hab’ selber Seele genung.

 

Ich will meine Seele zerschneiden,

Und hauchen die Hälfte dir ein,

Und will dich umschlingen, wir müssen

Ganz Leib und Seele seyn.

 

1822

 

 

 

Leia poemas de Joan Brossa e Jorge Luis Borges

 

 

 

 

Escrito por Josélia Aguiar às 12h10

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Um poema: Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges é mais conhecido pelos contos, menos conhecido pelos poemas.

Quem escolheu "Everness" para pôr nesta seção foi Júlio Pimentel Pinto, professor do departamento de História da USP, que conhece bastante de ficção, sobretudo latino-americana e italiana, e de poesia, em inglês, francês, espanhol e italiano.  É autor de, entre outros, "A Leitura e seus Lugares", que tem vários ensaios dedicados a Borges, e tradutor de Enrique Vila-Matas e Beatriz Sarlo.

 

Everness

Só uma coisa não há. O esquecimento.

Deus, que salva o metal, salva a escória

e anota em sua profética memória

as luas que serão e as que já foram.

 

Tudo já está. Os milhares de reflexos

que em meio aos dois crepúsculos do dia

teu rosto foi deixando nos espelhos

e todos os que ainda deixará.

 

E tudo é uma parte do diverso

cristal desta memória, o universo;

nunca têm fim seus árduos corredores

 

e as portas vão fechando quando passas;

somente do outro lado do poente

verás os Paradigmas e Esplendores.


Everness

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.

Dios, que salva el metal, salva la escoria

y cifra em Su profética memória

las lunas que serán y las que han sido.


Ya todo está. Los Miles de reflejos

que entre los dos crepúsculos del dia

tu rostro fue dejando em los espejos

y los que irá dejando todavia.


Y todo es una parte del diverso

Cristal de esa memória, el universo;

no tienen fin sus arduos corredores


y las puertas cierran a tu passo;

solo del outro lado del ocaso

verás los Arquétipos y Esplendores

 

Os versos em português estão no volume "O Outro, O Mesmo", traduzido por Heloísa Jahn para a Companhia das Letras, edição de 2009. Retirei os versos em espanhol do volume "Obra Poética", edição da Emecé de 2007.

Esta semana, completaram-se 25 anos da morte desse que é considerado um dos maiores gênios literários do mundo.


Leia um poema de Joan Brossa

Escrito por Josélia Aguiar às 11h48

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Um poema: Joan Brossa

Desde a estreia este blog precisa publicar versos.

Conto com vossas sugestões para tornar bastante assídua esta seção, que começa hoje.

Os versos abaixo, de Joan Brossa (1919-1998), estão em "Poemas Civis", volume editado pela 7 Letras em 1998, com tradução de Sérgio Alcides e Ronald Polito. 

Foi o poeta e tradutor Sérgio Alcides quem nos avisou da morte, ontem, aos 85, de Pepa Llopis, mulher de Brossa e curadora da fundação dedicada a esse grande artista e poeta catalão.

Leia a notícia da morte de Pepa Llopis no "Avui" (aqui, em catalão!)

Sobre a crise na Fundação Joan Brossa, no "La Vanguardia" (aqui, em espanhol).


Escrito por Josélia Aguiar às 11h46

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Jos�lia Aguiar Josélia Aguiar é jornalista, especializada na cobertura de livros. Assina a coluna Painel das Letras, publicada aos sábados no caderno "Ilustrada".


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